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O PLANO NOVO DA PETROS - REFLEXÕES Autor: Dorodame Moura Leitão |
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O PLANO NOVO DA PETROS - REFLEXÕES
Depois de 31 anos de existência, cumprindo os compromissos previstos em seu Estatuto e em seu Regulamento, apesar de todos os problemas e dificuldades, a atual direção da PETROS se dirige a seus participantes e oferece um novo Plano em tudo diferente do atual Plano de benefícios. Uma verdadeira "virada de mesa"!
A estratégia adotada pela direção da PETROS para efetuar mudanças tão radicais que afetarão o futuro dos participantes, é extremamente suspeita, colocando os interessados na defensiva. Talvez estejam seguindo os conselhos de Maquiavel de "fazer todo o mal rapidamente...". Entre outros fatos desabonadores desse posicionamento, podem ser destacados:
Por todos esses motivos, é importante que se analise, com muito cuidado, os diversos aspectos desse Plano Novo para que a opção seja feita com a maior consciência possível dos riscos nele envolvidos. Para fazer essa avaliação, procurei fazer uma apreciação, a mais desapaixonada possível (o que reconheço ser difícil, face às circunstâncias), das análises que têm sido efetuadas por várias pessoas (especialistas no assunto, ex-dirigentes da PETROS e entidades de classe que congregam participantes da PETROS) sobre os diversos aspectos do plano novo. A conclusão a que cheguei com esse estudo é que o assunto é demasiadamente complexo, restam muitas dúvidas que necessitariam ser devidamente esclarecidas e o assunto não deveria ser tratado da forma como está sendo feito. Creio que existem vários ângulos que não estão sendo discutidos de forma clara e transparente, o que torna o processo extremamente suspeito. Existem contradições entre o que é divulgado nos folhetos de propaganda e o que está contido no Regulamento do novo Plano e, até, entre artigos do referido Regulamento. Cheguei, enfim, à conclusão que a melhor solução para a situação do jeito que está no momento, seria a interrupção do processo e a sua discussão mais aberta e transparente, com a participação de entidades representativas dos participantes e especialistas isentos. Somente assim, no meu julgamento, seria possível encontrar uma solução para os alegados problemas da PETROS e da PETROBRÁS que não prejudicassem, por demais, os participantes, principalmente os já aposentados e que, portanto, não têm mais muito tempo para reverter possíveis surpresas desagradáveis no seu fim de vida. O resultado dessas reflexões está apresentado a seguir e visou principalmente ajudar-me a organizar as idéias e pensamentos sobre esta importante matéria, fundamental para a garantia do meu futuro e de minha família. Espero que ajude também a esclarecer colegas e amigos que têm me procurado para saber minha opinião sobre o assunto. EVOLUÇÃO E DIFICULDADES DA PETROS
Julguei interessante analisar rapidamente como tem evoluído a PETROS, uma das pioneiras entre os fundos de pensão fechados no país, assim como avaliar de passagem, as dificuldades que a fundação tem tido para funcionar e atender a seus objetivos.
Quando a PETROBRÁS foi criada em 1953, como uma empresa estatal, ela assumiu a obrigação de proporcionar aposentadoria integral aos seus funcionários, tal como o Governo fazia com seus funcionários. Os empregados da PETROBRÁS eram tratados, do ponto de vista da aposentadoria, como funcionários públicos. Em 1964, com o regime militar, os dirigentes da Empresa resolveram modificar essa sistemática. Foram, então, iniciados estudos para a criação de uma fundação que se encarregaria de fazer a suplementação dos benefícios do INSS, de forma a proporcionar a aposentadoria integral, livrando a PETROBRÁS dessa responsabilidade. Os estudos, iniciados em 1965, levaram a várias alternativas possíveis e se desenvolveram durante 5 anos. Finalmente, em 30 de junho de 1970, a PETROS foi criada, com muita resistência entre os funcionários. Eu tenho orgulho de dizer que sou um dos fundadores da PETROS. Na década de 70, a PETROS foi apreendendo a funcionar como fundo de pensão dentro de uma conjuntura econômica desfavorável que trouxe muitas dificuldades ao seu funcionamento. A PETROBRÁS socorreu a PETROS em algumas oportunidades para solucionar problemas atuariais. As primeiras leis regulamentando os fundos de pensão datam dessa época. Em 1984, a fórmula para calcular os benefícios mostrou-se totalmente inadequada em função da inflação existente naquela época. Foram criados novos fatores para reajuste dos benefícios (Fator de Reajuste (FAT) e Fator de Correção (FC)). O novo método acertou o cálculo dos benefícios, mas as despesas da PETROS aumentaram consideravelmente. Na década de 80, a PETROS atravessou um período de sucessivos déficits técnicos para os quais contribuíram os planos econômicos e os investimentos compulsórios, que culminaram em 1987, com uma insuficiência patrimonial equivalente a 130% do patrimônio. A década de 90 iniciou com o Plano Collor, de triste memória, A PETROS sofreu muito nessa ocasião e teve até que recorrer ao Banco do Brasil por problemas no fluxo de caixa, para poder pagar benefícios! A década continuou tumultuada, tendo influenciado negativamente nos balanços da PETROS a compra de ações "podres" por determinação do Governo da época! Foi uma fase de muitos sustos e desequilíbrios face à instável situação econômica brasileira. Por outro lado, o equilíbrio atuarial começou a desestabilizar pela política de enxugamento das estatais. A enorme redução dos quadros da Empresa com demissões e incentivos à aposentadoria, reduziu o quadro de ativos da Empresa de 65.000 funcionários para cerca de 30.000! Além disso, a massa de aposentados cresceu enormemente. A alternativa encontrada para resolver essa questão foi conseguir que a PETROBRÁS reconhecesse a dívida existente desde a criação da PETROS referente ao pagamento dos benefícios dos 21.600 participantes que já eram empregados da PETROBRÁS antes da criação da PETROS. A PETROBRÁS aceitou pagar o custo real dos benefícios desses empregados. Apesar da PETROBRÁS ter adiantado o pagamento dessa dívida, a PETROS continuou com problemas atuariais, talvez porque esse pagamento tenha sido feito na chamada "moeda podre" (títulos do Governo que rendem correções pelo IPCA). Atualmente, já existem rumores de que o cálculo dessa dívida foi mal feito e que a PETROBRÁS deveria muito mais à PETROS. A situação precária da PETROS levou a que a PETROBRÁS, a partir de 1995, começasse a escamotear os aumentos dados ao pessoal da ativa, sob a forma de abonos e participações no lucro, para não transferir tais aumentos para o pessoal aposentado. Mesmo assim, os problemas atuariais da PETROS continuaram neste novo século, o que acabou levando a fundação a propor a criação do novo plano. OBJETIVOS DO NOVO PLANO
De acordo com propaganda da PETROS, as razões para se criar o novo Plano, são:
DIFERENÇAS BÁSICAS ENTRE OS DOIS PLANOS
Existem diferenças básicas e fundamentais entre o Plano Atual e o Novo Plano proposto. As mais importantes são:
Quanto aos seus objetivos
A QUESTÃO DO DESMEMBRAMENTO DO PATRIMÔNIO SOLIDÁRIO PARA PERMITIR A TRANSFERÊNCIA DE PARCELAS PARA O NOVO PLANO
O Plano Novo prevê a transferência de parcelas do patrimônio solidário existente atualmente no Plano Atual na ocasião em que algum participante faça sua opção pelo Plano Novo. Para isso, esse patrimônio, construído ao longo de 31 anos e que tem garantido nossos benefícios em todo esse tempo, terá que ser desmembrado para separar cotas imaginárias referentes a cada participante. No caso dos aposentados, serão definidas reservas matemáticas através de metodologia desconhecida, as quais, ao serem transferidas para o Plano Novo, garantirão o pagamento dos benefícios através de aplicações que serão feitas pela PETROS. Serão cotas individuais, desaparecendo a garantia do sistema do compromisso solidário das patrocinadoras que, há 31 anos, mantêm o pagamento regular e ininterrupto dos benefícios dos aposentados e pensionistas.
Dessa forma, a transferência da parte do patrimônio garantidor do pagamento dos benefícios do Plano Atual prejudicará os que optarem por permanecer nesse Plano Atual. Por esse motivo, o procedimento é considerado de validade jurídica discutível pelos especialistas no assunto. Como a criação de um plano pode prejudicar aqueles que não desejarem sair do Plano Atual? De acordo com a opinião de antigo Diretor da PETROBRÁS e ex-presidente da PETROS, "no que se refere aos associados já aposentados que recebem suplementação, não identificamos no Estatuto e no atual Regulamento orientações que permitam migrações. No caso de migrações de aposentados, fala-se na transferência da chamada reserva técnica de benefícios que cada participante deve receber durante toda a sua vida, incluindo as pensões a serem pagas aos dependentes. Essa reserva seria transferida para o novo plano em nome do participante aposentado que solicitasse migração. O cálculo dessa reserva de cada participante aposentado (parte do patrimônio total referente ao plano) poderia causar interpretações diversas, o que levaria a reclamações. O cálculo atuarial, que orienta a formação do patrimônio relativo ao atual plano, faz considerações características diversas, entre as quais a idade média de vida dos participantes. O cálculo da reserva técnica de beneficio relativa ao aposentado que queira migrar teria de levar em consideração a expectativa de sobrevivência do aposentado em causa, à época da possível migração. Isto pode levar a questionamentos". E conclui o referido ex-presidente da PETROS que "a migração para o novo plano, ao nosso ver, não deve ser permitida aos já participantes da PETROS, sobretudo aos aposentados. O novo plano mencionado somente deve ser aplicado aos novos e aos atuais empregados (da Patrocinadora), que não tenham ainda ingressado à PETROS". E para justificar seu raciocínio, explica que "a PREVI (Fundação previdenciária dos empregados do Banco do Brasil) estabeleceu que seu novo plano somente é aplicável para os novos participantes, não permitindo migrações. Como já temos um exemplo e em vista das considerações que apresentamos, somos do parecer de que a PETROS deve tomar as providências necessárias para que, se o novo plano for implantado, não sejam admitidas migrações do atual para o novo plano, sobretudo de associados já aposentados". Acredito que esse desmembramento poderá ser a razão para barrar na Justiça a implantação do Plano Novo com migração e transferência de parte do patrimônio solidário do Plano Atual. De qualquer forma, se isto não for possível, creio que quem permanecer no Plano Atual tem todo o direito de reclamar na Justiça dos prejuízos causados pelo desmembramento desse patrimônio. CONSEQÜÊNCIAS DA MIGRAÇÃO
Ao migrar para o Novo Plano, o participante estará renunciando definitivamente a todas as garantias e direitos do Plano Atual. Com isso, perde todos os direitos adquiridos através de "ato jurídico perfeito", além de aceitar a defasagem salarial existente e as perdas provocadas pelo escamoteamento dos aumentos concedidos aos da ativa através de bônus. As perdas ocorridas não poderão ser mais reclamadas e recuperadas.
REFLEXÕES FINAIS
Face ao apresentado nos itens anteriores, acredito que dois itens se destacam como fundamentais para a análise do Plano Novo e sua comparação com o Plano Atual. São eles:
REAJUSTE DO BENEFÍCIO
Plano Novo
Vantagem (?): A PETROS alega como vantagem a correção anual, no mês de junho, pelo IPCA, a começar em setembro de 2001. Desvantagens:
Vantagem: O benefício está ligado ao salário do pessoal da ativa. Com isso, seria garantida a manutenção do poder aquisitivo. Essa era a grande atração da PETROS desde a sua criação. Desvantagem: Nos últimos anos, com o Plano Real, a PETROBRÁS adotou uma política de achatamento salarial que já desvalorizou nosso benefício. Os sindicatos alegam perdas de mais de 40%! Além disso, a PETROBRÁS e a PETROS estão escamoteando os aumentos dados ao pessoal da ativa, concedendo-os sob a forma de abonos e participação nos lucros. Há o grande risco de que continuem a usar desse vergonhoso subterfúgio. Nesse caso, a solução continuará a ser o recurso à Justiça que já está sendo tentado. Há, contudo, a possibilidade de que queiram corrigir as tabelas salariais do pessoal da ativa, uma vez que já concluíram que os salários da PETROBRÁS estão defasados em relação ao mercado. COBERTURA DE POSSÍVEL DÉFICIT
Plano Novo
Vantagem: Na propaganda em folhetos, a PETROS apresenta esse item como vantagem do Plano Novo. Alega que haverá garantia integral da PETROBRÁS do pagamento do benefício, mesmo em caso de déficit. Algumas pessoas interpretaram, que o artigo 109 do Regulamento garante essa vantagem. Contudo, a redação do artigo dá margem a dúvidas, pois está confusa e está dentro da Seção que trata do Plano de Custeio da Migração (do Custeio da Migração, ressaltamos, não do Custeio do Plano Novo!). Além disso, no Capítulo VII, que trata do Custeio do Plano Novo (do Plano Novo, ressaltamos), o artigo 48 afirma que "será instituída contribuição adicional paritária do Participante Assistido (aposentados e pensionistas) e da Patrocinadora, avaliada anualmente, destinada ao equilíbrio atuarial em relação aos compromissos assumidos com os benefícios concedidos pelo Plano Petrobras Vida, caso os recursos existentes (...) sejam insuficientes para a cobertura daqueles compromissos." Desvantagem: Pelo visto, a cobertura do déficit será dividida entre o participante e a PETROBRÁS. Porque tentar enganar no folheto de propaganda? É suspeito. Plano Atual Vantagem: O Plano Atual prevê que a cobertura do déficit será feita pela PETROBRÁS. Desvantagem: O Governo baixou leis que impedem que a PETROBRÁS cubra o déficit sozinha. Contudo, o assunto trata de direito adquirido. O problema é que, com certeza, teremos que entrar na Justiça para conseguir o que é nosso de direito. CONCLUSÕES
Face ao exposto, penso que fica claro que os riscos são grandes, quer a opção seja por continuar no Plano Atual quer se decida por migrar para o Plano Novo.
Haveria necessidade de uma discussão aberta e transparente com a participação de especialistas representantes de todas as partes em jogo para que fosse estabelecido um maior equilíbrio entre os interesses em jogo. Acredito que seria possível encontrar-se uma fórmula conciliatória que evitasse o naufrágio da PETROS, mas, ao mesmo tempo, preservasse direitos dos participantes que aderiram à PETROS desde a primeira hora e agora se vêem "pendurados na brocha"! Retiraram a escada que nos garantia um fim de vida mais tranqüilo e sem tantos sobressaltos. Para isso, seria necessário que o atual processo de criação do Plano PETROBRÁS Vida fosse interrompido para proporcionar tempo e transparência para uma maior discussão do assunto. Para isso, a PETROS teria que abrir o jogo e estar disposta a debater francamente suas dificuldades, a procura de soluções em conjunto com os maiores interessados, que são os participantes. A PETROBRÁS também teria que reconhecer que é a maior responsável pela atual situação devido ao desbalanceamento que causou na PETROS ao parar com a admissão de novos funcionários e incentivar exageradamente a aposentadoria. Por esse motivo, deveria afirmar sua responsabilidade pela cobertura de déficits existentes ou futuros, dando condições de garantia dos benefícios. Pelo que soube, a Empresa já reconheceu o erro de sua política de terceirização, adotada em paralelo com o enxugamento do quadro de pessoal. As pessoas responsáveis por esta política já entenderam que esta é uma política totalmente inadequada para uma indústria de altíssimo risco operacional como é a indústria de petróleo. Para provocar uma interrupção do processo a esta altura, contudo, uma das duas coisas teria que acontecer. Ou o número de participantes que aderiram ao Plano Novo teria que ser muito pequeno, provocando uma revisão de todo o processo, ou teria que se conseguir uma liminar na Justiça que interrompa a implantação no Plano Novo. Não acredito que uma atitude altruísta parta, espontaneamente, da PETROS ou da PETROBRÁS, em função das reações contrárias à forma autocrática como vem sendo desenvolvido o processo. Também acho dificílimo conseguir-se um número tão baixo de migrações que justifique uma revisão do Plano Novo. Existe um grande número de participantes com dificuldades financeiras de curto prazo que certamente migrarão só para receber as migalhas que a PETROS, indecorosamente, está oferecendo para forçar a adesão ao Plano. Dessa forma, a única saída que vejo para esse impasse é a interposição de ações na justiça, a fim de que seja conseguida uma liminar que interrompa o processo antes do dia 7 de dezembro e force uma discussão mais aprofundada e sem subterfúgios do problema para que seja encontrada uma solução mais decente para todos. Caso isso não seja possível, estaremos entregues à própria sorte. A união, o solidarismo que marcaram todos esses anos da PETROS serão jogados no lixo! Prevalecerá o individualismo! Cada um de nós terá que analisar sua situação individualmente, traçando seus cenários próprios e, então, decidir pela opção que lhe parecer de menor risco para si e sua família. E que Deus nos proteja a todos! Para encerrar, quero afirmar que até entendo que provavelmente o Plano Atual não possa ser mantido com o desbalanceamento atuarial da PETROS. Entendo também que a PETROBRÁS necessita dar melhores salários para os da ativa para fazer frente à crescente concorrência de empresas multinacionais. O que não aceito é que isso seja feito as custas do nosso futuro. Acho que todos nós que ajudamos a construir essa Empresa que é, sem sombra de dúvida, a maior realização do povo brasileiro no Século XX, merecíamos mais consideração por parte dos atuais dirigentes da PETROBRÁS e da PETROS. Mas, os tempos são outros e o que conta agora, essencialmente, são os valores distorcidos do mundo atual, onde prevalecem o capitalismo selvagem, o pouco caso com o social e uma concorrência desenfreada e sem limites que não se preocupa em sair pisando e destruindo quem estiver pela frente, para atingir seus objetivos (no Brasil de hoje, pagar os juros da dívida externa é mais importante que cuidar dos pobres e miseráveis). Mesmo que os atingidos nessa caminhada tresloucada sejam os que ajudaram a dar vida à Empresa e a levá-la ao sucesso que hoje desfruta no mundo. Infelizmente, atitudes humanistas, de respeito e reconhecimento, são consideradas ultrapassadas e fora de moda. Só "dinossauros" pensam nessas coisas! Dorodame Moura Leitão - ex-chefe da Diter e primeiro chefe da Diplat, idealizador de todo o arcabouço de organização da atividade técnica (áreas, programas tecnológicos, CTE, CTO, indicadores de desempenho das gerências...) do Cenpes atual. |